Sobre ser espiritano… padre catador

Essa estória aconteceu quando um confrade (aquele que é membro da mesma congregação) por acaso apareceu lá no ITESP. Ele não estava lá para participar de nenhuma palestra, e tampouco vinha consultar nossa biblioteca, como é comum entre os visitantes. O encontro foi por acaso mesmo! Acho que ele nem sabia que bem ali era o instituto de teologia. Na verdade foi um encontro vocacional. Não vocacional como estamos acostumados, digo vocacional no sentido de um encontro onde mais vez se pode ouvir e sentir que nossas opções valem a pena. Que estamos em um caminho que nos fará completos.

Padre Assis Tavares, CSSp
Onde está o padre?

Em linhas gerais foi assim: Este confrade, às terças-feira, se paramenta de catador de “lixo” reciclável e poe suas mãos ungidas na massa. É isso mesmo! Ele chegou na hora do intevalo, quando todos estavamos no patio tomando café e conversando. De longe pude reconhecê-lo e convidei para se juntar a nós. Ele aceitou, mas seu tempo era curto, pois ali estava para “catar lixo” de um instituto vizinho. “Como é? Onde já se viu um padre catador? Ou ainda, como pode aquele ‘neguinho’ todo sujo ser padre? Onde estava sua dignidade sacerdotal?”

Caramba! Agora tudo faz sentido. Agora, as palavras do Francisco e do Plano de Animação fazem algum sentido. Sabe, aquela história de pastor com cheiro de ovelha? Eu não sabia que o cheiro era de “lixo”. Sabe, aquela outra sobre sermos dóceis obreiro à serviço do Reino? Eu não sabia que o trabalho era catar “lixo”. “Mas, por que? Não pode ser assim. Niguem estuda quase uma década para depois ir catar “lixo”. Eu sou missionário. Fui preparado para evangelizar.”

Na verdade, nosso encontro foi bastante natural, para mim não tinha nada de incomum, até sabia que ele fazia esse trabalho. Entretanto, foi conversando com alguns colegas da faculdade, sobre quem era aquele “neguinho”, que meus olhos brilharam e “nosso coração ardia” enquanto escutava: Ele é espiritano! Ele é meu irmão!

Logo cooper_recifavela

Então, toda essa história é sobre ser espiritano. Ser completo na missão que nos é confiada. A este nosso irmão lhe foi pedido para acompanhar a população das favelas na região da Vila Prudente (São Paulo), onde tem uma cooperativa de reciclagem. Por isso, ele catava “lixo”. Isso quer dizer nem todos os espiritanos catam “lixo”, mas como espiritanos somos chamados a fazer nossa opção pelos pobres (RVE 4), na trilha de Francisco Libermann (1802-1852):

Não julguem à primeira vista; não julguem pelo que viram na Europa, por aquilo a que foram habituados na Europa; despojem-se da Europa, dos seus costumes, do seu espírito; façam-se negros [africanos] com os negros [africanos], e serão capazes de os apreciar como eles devem ser apreciados; façam-se negros [africanos] com os negros [africanos] (…) (1847).

Nha armum (meu irmão, em criolo), se faz brasileiro com os brasileiros, se fez catador com os catadores se despojando da Africa e da Europa. Sendo apenas ele mesmo. Quem tem olhos, olhe!

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