Com-por-se

Uma vez eles eram cachorro e gato. Chien e Chat, naquela manhã, não sabendo que estavam presos, saíram.

Chien era resumidamente feliz, recebia seu prato de ração, trabalhava das 8h às 17h, e sorria nos intervalos. Chat tinha pedaços de alegria, se dedicava a ronronar e a distanciar. No caminho de Chat havia a escadaria do Bonfim, no de Chien a Praça dos Três Poderes. Chat quis subir mas declinou. Chien desejou gritar mas desconsiderou. Ambos fingiram um riso e seguiram o caminho.

Estavam em vagões diferentes da mesma composição. Saltaram equivocadamente juntos. Foi somente no Parque Ibirapuera que se deram conta da presença deles. Os viandantes se encontraram e simularam possuir instintos. Um mostrou as presas e o outro as garras, mas se fixaram e apenas idealizaram uma partida.

Com os olhos uns nos outros, Chat e Chien se olharam. Chat mirou a docilidade por trás das presas do cão. Entre as garras do felino, Chien admirou a insegurança. Imersos em uma reflexão se viram sob a marquise confusamente juntos, entre latidos e miados se compreenderam e desconfiaram que estavam presos. Subiram e gritaram do alto do Obelisco, e verdadeiramente riram da dança das águas. Olharam-se e confiaram.

Chien já não queria sua ração, seu trabalho e seu sorriso com hora marcada. Chat dispensava seus jogos afetivos. Ainda sendo os mesmos, sentiram-se como o outro. Agora compunham juntos na mesma composição.

Noutra manhã, Chien e Chat sabendo que são livres, decidiram partir largando para trás resumos e pedaços.

E tudo aconteceu uma vez quando eram cachorro e gato.

Fomos felizes

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Tudo ia bem entre nós. Nos conhecemos meio de improviso, sem segundas intenções, era apenas uma relação burocrática. Íamos e voltávamos juntos todo dia, de repente, nós passamos a estar juntos mesmo nos fim de semana. Tudo foi acontecendo muito rápido, quando vi já estávamos envolvidos profundamente. Não sabia muito bem o que ela sentia, se lhe era unilateral aquela relação, se eu lhe exigia demais, ou se tudo ia bem. Às vezes ela parecia reclamar, mas conhecendo sua força e resistência eu não levava em conta. Foram muitas aventuras vividas, enfrentamos altos e baixos e superamos limites, que muitos não superariam.

Agora que me vem à memória vários momentos juntos. Acho que essa vez posso contar. Fomos surpreendidos por um temporal. Nossa senhora! Era muita água. O mês era janeiro. Chuva de verão. Era muita água. O céu cinzento e os trovões anunciavam que viria chuva. Mesmo assim saímos. Eu sabia que aguentaríamos a intempérie. Naquele dia quase conseguimos. Ela bem que poderia ter me avisado que não conseguiria aguentar. Como iria saber? Foi quando notei que não nos conhecíamos tão bem quanto eu imaginara. Era muita água. Não chegamos onde queríamos, mas permanecíamos juntos.

Teve outra vez. Não, não foi temporal. Saímos para dar um passeio, como comumente fazíamos. Ela sempre deixava eu guiar e eu meio sem saber para onde íamos, tinha uma vaga ideia, seguia com autoridade, como quem sabe para onde vai. Que nada, meti a gente numa favela. Estávamos perdidos. Ela não era acostumada a circular por aquelas áreas. Eu tampouco, mas mantive a pose. Agora vejo que isso a irritava. Lá pelas tantas, naquelas ruas estreitas, esbarramos em não sei o quê ou quem. Nossa senhora! Deu medo. Estávamos bem, mas houve uma gritaria que nem deu para entender bem. Eu mantive a pose. A coisa foi tensa.

Não foram apenas essas aventuras que passamos juntos. Teve aquelas sem tensão. Divertidas. Com aquele friozinho na barriga e aquela sensação de liberdade que dura meio segundo. Fomos para praia, para o campo, para o norte e para o sul. Éramos pau pra toda obra. Juntos éramos o máximo. Cantamos, dançamos, rimos e choramos. Não tinha tempo ruim. Ajudamos muita gente também. Não era preciso pedir duas vezes. Nossa senhora! Teve uma vez que carregamos um sofá enorme, quase que não coube. Outra, fomos ajudar um amigo que recebera uma doação de não sei quantos quilos de arroz. Nossa senhora! Eita trem pesado, mas conseguimos.

De uns tempos pra cá algo mudou, não sei bem o que era. Não sei se era eu ou se era ela, mas algo naquela relação ficou diferente. Nossos encontros não eram tão frequentes como no início. Da mesma forma que nos aproximamos, meio sem entender o porquê, nos distanciamos. As memórias ainda estavam vivas, mas já a vontade de estar juntos não. Não foi sem demora que outros passaram a sair com ela, eu não senti ciúmes. Nunca nos pertencemos. Sabíamos muito bem que tudo aquilo era passageiro. E foi isso que aconteceu, me tornei mais um passageiro.

Não chorei nem fiquei de luto, quando ontem fui me despedir. Ela não se sentiu usada, tinha consciência do sistema e como as coisas funcionavam, além disso ambos sabíamos que não estávamos bem. Ela precisava rodar o mundo, ganhar a estrada, viver outras aventuras, e eu preferia outros meios, novas experiências, outros pontos de vista. Tudo foi de comum acordo.

Depois de um anúncio no Primeira mão, consegui R$ 15 mil reais pela kombi, ficamos juntos nove anos e fomos felizes.

Estou pensando agora em adquirir uma bicicleta, cansei de andar de ônibus.

Viagens de uma mente peregrina IV

Por que andas triste, caminheiro?

O quê foi que aconteceu pelas bandas de lá?

Não foi a tua eloquência e teus debates

Que te fizeram triste?

Ora, caminheiro

Não percebes que teu Mestre caminha contigo?

Deixa, então, que Ele venha 

Ele fará da tua tristeza, alegria

Te teus passos curtos, corrida

Deixa!

Ele te saciará.

E tu, caminheiro 

Vais correr…

Correr até as bandas de lá

Cantando as alegrias

As alegrias do encontro

As alegrias do Pão, da partilha

do modo sensillo encontras-te 

Teu Mestre.
Paraguai, 11/04/2012

Viagem de uma mente peregrina III

Essa noite tive um sonho. Uma moça bonita me perguntava se eu conhecia a nova música do padre Fábio de Melo. E eu respondia não. “E do padre Marcelo?” “Também não.” Por fim ela me perguntou sobre o padre Paulo Ricardo. “nao tô sabendo de nada.” Ainda quis insistir no assunto então perguntei: “você conhece o padre Julio Lancellotti? Estava lendo uma homi…” Ela me interrompeu e foi logo se interessando:”não conheço. Que música ele canta?” Daí eu acordei…

Somos humanos

Daniel na cova dos Leões

Aquela noite parecia qualquer como as outras, caminhávamos pela rua, voltando para casa, uma colega e eu. Vínhamos conversando sobre problemas e trivialidades desta vida. Se bem me lembro, a  certa altura, ela me contava algo que me fez (pensar) rezar: “hoje entrei nessa igreja e ela estava tão vazia quanto eu”. Mas, pelo caminho, algo aconteceu que mudou minha oração.

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